O mercado de construção civil embute boas oportunidades para empresas de médio porte, mesmo em períodos de crescimento mais contido. De janeiro a outubro de 2025 o setor registrou 214,7 mil novos empregos formais ou 11,92% do complete de novas vagas geradas em todos os segmentos de atividade no país, segundo o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho. Apesar do resultado positivo, trata-se de uma desaceleração de 7,03% em relação ao saldo de postos no mesmo período de 2024 – mas as empresas mantiveram bons resultados.
“Mesmo assim, o ano foi bom para todos os portes de empresas do setor”, diz Fernando Guedes, presidente-executivo da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC). “Houve uma aceleração, mesmo que pequena, especialmente no programa Minha Casa, Minha Vida, que recebeu um incentivo grande. Houve muitas contratações e muitas médias trabalham nesse segmento”, afirma.
Representantes da CBIC estiveram na sexta-feira (23) com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva para participar da entrega de 1.337 moradias do Minha Casa Minha Vida e celebrar a marca histórica de 2 milhões de unidades habitacionais contratadas desde a retomada do programa, em 2023.
O mercado residencial, especialmente de interesse social, é um campo de atuação importante para muitas médias empresas, apesar de elas terem presença em todos os segmentos da construção civil, segundo Cláudio Hermolin, vice-presidente da CBIC na região Sudeste. “Mas também temos trabalhando em infraestrutura, seja no saneamento básico, seja na área de logística, com concessões de aeroportos e rodoviárias.”
Um dos problemas das construtoras de médio porte costuma ser o acesso ao crédito, com juros em média a 15%. “No mercado imobiliário, cerca de 50% do crédito hoje já não é mais oriundo dos grandes bancos. Esse crédito passou a vir de operações financeiras alternativas, como bancos de investimento, Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRI) e Letra de Crédito Imobiliário (LCI), diz Hermolin, classificando essas soluções como alternativas para baratear o crédito.
“O desafio é estruturar produtos com tamanha percepção de valor que o cliente sinta segurança em investir, mesmo em um cenário de crédito mais restritivo”, afirma Joel Zonta, fundador e CEO da Halsten Incorporadora. Com faturamento próximo a R$ 300 milhões, a construtura está há 13 anos no segmento de alto padrão, sobretudo no norte de Santa Catarina. “Temos maior flexibilidade, proximidade com o cliente e agilidade na tomada de decisão, enquanto as grandes corporações operam com volumes massivos e projetos muitas vezes padronizados”, diz Zonta.
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O executivo enxerga um mercado aquecido para as médias. “Não é algo generalizado, mas produtos com diferenciais claros e excelente localização performam bem. Cidades como Joinville e Balneário Camboriú permanecem como um dos mercados mais resilientes do país”, afirma. A cidade costeira, localizada a 80 km ao norte de Florianópolis, é um dos focos em 2026 da construtora, que vai lançar um empreendimento de alto padrão 100% mobiliado. “Este projeto propõe um novo paradigma para o mercado de luxo. É a nossa principal aposta para elevar o nível de diferenciação da marca.”
Fundada em 2007, em Goiânia, pelos engenheiros Paulo Silas Ferreira e Ricardo Maciel, a SIM Incorporadora atua no desenvolvimento de empreendimentos residenciais e ajusta o perfil de seus lançamentos de acordo com as características de cada mercado. Atualmente, a empresa concentra a maior parte de seus lançamentos em apartamentos compactos na capital goiana, voltados principalmente a investidores, ao mesmo tempo em que desenvolve um projeto residencial de alto padrão, com unidades maiores, entre 153 m2 e 164 m2, em Sorriso (MT), onde a demanda apresenta outro perfil.
A companhia, que faturou R$ 130 milhões em 2024 e somou R$ 99,4 milhões até setembro de 2025, tem hoje cinco obras em andamento. Na capital goiana, os projetos em desenvolvimento são formados por unidades de um e dois dormitórios, com valores médios de venda que variam entre R$ 10,5 mil e R$ 12 mil por metro quadrado, a depender da localização e das características de cada empreendimento.
“Goiânia é uma cidade que está aquecida, impulsionada pelo lado dos negócios, principalmente pelo agronegócio, com a chegada de pessoas de fora e um mercado que continua absorvendo novos empreendimentos”, afirma Maciel.
Com mais de R$ 15 milhões em faturamento em 2025, o Grupo Deveck completa 19 anos de história em 2026 em meio a uma transição geracional. Fundado por Edilson Devechio, Renato Izzo e Samuel de Ávila, está agora com a filha Thainá Devechio como diretora jurídica e administrativa e o próprio Renato como diretor executivo. “Mantemos os princípios que deram origem à empresa e incorporamos uma gestão mais moderna e estruturada, o que nos ajudou muito em momentos críticos como a pandemia”, diz Izzo.
Thainá acredita que o mercado imobiliário nunca esteve realmente numa temperatura morna. “Sempre existe espaço para expansão, seja pelo crescimento econômico da população nos projetos de médio e alto padrão, seja pela necessidade contínua de redução do déficit habitacional nos empreendimentos populares”, afirma.
A Deveck tem maior atuação em Osasco, na Região Metropolitana de São Paulo. “Aqui nunca houve desvalorização imobiliária. Pelo contrário, o crescimento urbano e econômico foi tão consistente que o município hoje ocupa o segundo maior PIB do Estado e o oitavo no rating nacional”, ressalta Thainá.
Segundo Izzo, enquanto as grandes construtoras priorizam a escala – focando em grandes volumes de unidades e elevado Valor Geral de Vendas (VGV) para maximizar o faturamento -, as médias empresas seguem um caminho distinto. “O foco tende a mudar para a qualidade da entrega e não a quantidade, com uma preocupação maior com o produto remaining, diferenciais construtivos e, principalmente, as necessidades do cliente. É uma forma de competir não pelo tamanho, mas pelo valor agregado ao produto remaining”, afirma Thainá.
As três construtoras afirmam que participam do desenvolvimento do produto até a entrega. “Hoje, o cliente não compra apenas o imóvel, mas todo o relacionamento – do primeiro contato ao pós-entrega. Em um mercado seletivo, empresas com posicionamento claro e propósito consistente tendem a se destacar mais do que aquelas que competem apenas por preço”, diz Zonta.