Thursday, June 11, 2026
HomeWorld NewsDe piada de web a arma política, memes ganham espaço nas trincheiras...

De piada de web a arma política, memes ganham espaço nas trincheiras | Mundo

-


Mensagens de web quase sempre bem-humoradas e de assimilação relativamente rápida, os memes estão se tornando, cada vez mais, ferramentas táticas eficazes, segundo especialistas – embora seu impacto estratégico sobre corações e mentes permaneça incerto. Seu sucesso depende menos de quem os produz do que da capacidade de mobilizar comunidades dispostas a replicar, adaptar e reinventar mensagens.

Herdeira da propaganda militar e das “psy-ops” (operações psicológicas) a “guerra memética” também pode interferir na capacidade das pessoas de compreender a realidade ao misturar humor e fatos ou apresentar imagens geradas por inteligência synthetic. Essa disputa ajuda a ilustrar a ideia de que toda brincadeira contém um fundo de verdade.

O uso de memes e inteligência synthetic em conflitos como a guerra da Ucrânia e, mais recentemente, o confronto envolvendo o Irã evidencia a importância da disputa de versões – as “narrativas” – na esfera pública. Mas expõe também os limites dessa estratégia.

O conceito de meme é relativamente recente. Foi criado pelo biólogo britânico Richard Dawkins, em 1976, para descrever unidades de transmissão cultural: ideias, comportamentos ou expressões que se replicam, sofrem adaptações e podem se disseminar rapidamente. A guerra memética envolve o uso dessa propriedade para fins de persuasão, mobilização política e influência cultural.

Pesquisadores europeus e a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) vêm estudando o papel dos memes em conflitos e operações de informação desde os anos 2010. Eles afirmam que a cultura participativa do ambiente digital tem levado governos, empresas e indivíduos a explorar cada vez mais essa estratégia.

A chamada “alt-right”, ou nova direita americana, investiu pesadamente nessa tática em 2015 e 2016. O presidente americano, Donald Trump, é conhecido por sua afeição aos memes e costuma utilizá-los para ridicularizar adversários ou reforçar suas mensagens.

No conflito com o Irã, porém, os EUA encontraram um adversário capaz de explorar referências da cultura digital ocidental para produzir conteúdos virais e satíricos. Um exemplo são vídeos gerados por inteligência synthetic que reproduzem a estética das animações da franquia Lego.

A guerra memética já faz parte do cenário político world”

— Tine Munk

O empreendedor americano Jeff Giesea tornou-se conhecido como um dos primeiros proponentes da guerra memética. Giesea trabalhou com Peter Thiel, que investiu em algumas de suas empresas, e ajudou a impulsionar comunidades on-line – e seus memes – que apoiaram a eleição de Donald Trump à Presidência dos Estados Unidos em 2016. Em 2020, rompeu com Trump e declarou apoio a Joe Biden e, posteriormente, a Kamala Harris.

Em um artigo influente publicado em 2015 pelo Centro de Excelência em Comunicações Estratégicas da Otan, ele defendeu maior investimento em guerra de informação e propôs uma estratégia memética para combater o Estado Islâmico. Em entrevista ao Valor, Giesea afirma que o verdadeiro critério para avaliar o sucesso das campanhas modernas de influência não é o número de visualizações ou compartilhamentos, mas sua capacidade de alterar comportamentos.

Giesea afirma que as operações meméticas iranianas – especialmente os populares vídeos gerados por inteligência synthetic usando personagens de Lego – têm sido eficazes no nível tático. Segundo ele, ao agir rapidamente, utilizar a linguagem da cultura digital e se posicionar como o lado mais fraco do conflito, o Irã conseguiu atrair atenção significativa nas redes sociais.

No entanto, isso não significa que Teerã esteja “vencendo a guerra dos memes”, diz Giesea. Embora esse conteúdo possa influenciar percepções e gerar engajamento, ele afirma que há poucas evidências de que tenha produzido ganhos estratégicos concretos, como mudanças em negociações, decisões governamentais ou resultados militares.

Giesea defende que os memes representam uma evolução moderna das operações psicológicas tradicionais, mas o poder da influência atualmente vai além do conteúdo em si. Cada vez mais, argumenta, a verdadeira disputa ocorre no que ele chama de “terreno do discurso” – as plataformas, os algoritmos e as regras que determinam como a informação circula.

Ele também critica o uso de memes pela administração Trump. Esse tipo de comunicação tende a favorecer grupos insurgentes ou outsiders políticos, explica. Quando esses grupos chegam ao poder, suas tentativas de reproduzir a mesma linguagem frequentemente parecem artificiais e perdem eficácia.

Embora considere algumas operações de comunicação das Forças Armadas dos EUA bem-sucedidas, ele avalia que muitos esforços meméticos da Casa Branca carecem de estratégia e alerta que a questão central não é quem produz os memes mais engraçados, mas quem consegue influenciar a opinião pública, a economia, a diplomacia e os resultados concretos do conflito. “Os memes podem ser poderosos, mas sempre existe uma dança entre o poder duro e o poder suave (smooth energy) da guerra memética”, afirmou, citando conceitos de diplomacia que se baseiam na imposição de valores políticos e influência pela força (exhausting energy) ou pela cultura (smooth energy).

Mareike Meis, pesquisadora do Instituto para o Direito Internacional da Paz e dos Conflitos Armados (IFHV), na Alemanha, estudou o Nafo (North Atlantic Fella Group), movimento on-line pró-Ucrânia que utiliza memes e sátira para combater a propaganda russa. Para ela, a guerra memética pode ser entendida como uma forma de propaganda de guerra em que os memes, mais do que entretenimento, funcionam como instrumentos de persuasão, mobilização política e influência cultural.

Segundo Meis, a web transformou a guerra da informação ao permitir que cidadãos comuns participem da disputa por narrativas, produzindo conteúdos capazes de alcançar milhões de pessoas. Ela chama esse fenômeno de “guerra participativa”, na qual a fronteira entre observadores e participantes se torna cada vez mais tênue.

Em seus estudos sobre a guerra na Ucrânia, Meis observou como comunidades on-line usam memes para contestar narrativas adversárias. A estratégia se baseia em inundar as redes sociais com conteúdo que reinterpreta acontecimentos e dificulta a disseminação da propaganda rival. Sua eficácia está justamente no caráter descentralizado e imprevisível da participação dos usuários.

Essa, porém, é também sua principal limitação. Como dependem da interação coletiva, os memes podem ser apropriados, modificados ou até usados contra seus criadores. Ainda assim, governos, organizações e empresas demonstram interesse crescente na guerra memética como ferramenta de influência no ambiente digital.

Meme publicado por Trump, que evoca Jesus, causou forte reação negativa  — Foto: Truth Social
Meme publicado por Trump, que evoca Jesus, causou forte reação negativa — Foto: Reality Social

Tine Munk, professora da Nottingham Trent College, no Reino Unido, e pesquisadora da guerra memética, concorda que os memes deixaram de ser apenas entretenimento na web para se tornarem ferramentas centrais de comunicação política, mobilização social e disputa narrativa em conflitos contemporâneos.

Segundo Munk, o fenômeno ganhou força durante a invasão russa da Ucrânia, em 2022. “Os memes não são apenas piadas ou comentários on-line. Eles se tornaram uma parte significativa da comunicação dos Estados, mas também da resistência cívica e da defesa informacional”, afirma.

A pesquisadora também acompanhou a atuação da comunidade Nafo no combate à desinformação pró-Rússia. O grupo reúne voluntários de diversos países e, segundo a pesquisa, muitos participantes não se consideram ativistas políticos. “Eles agiram movidos por um senso ethical diante do sofrimento humano que estavam vendo”, explica.

Munk distingue dois tipos de guerra memética: a ofensiva, baseada em provocação, polarização e ridicularização do adversário; e a defensiva, focada em combater a desinformação, fortalecer an ethical pública e divulgar informações verificadas.

A especialista observa que governos e instituições passaram a adotar estratégias antes associadas a comunidades digitais. Ela cita o uso crescente de memes pela Casa Branca, pela União Europeia e por governos nacionais. No entanto, avalia que campanhas centralizadas nem sempre conseguem reproduzir a espontaneidade das comunidades on-line.

Ao comparar as recentes campanhas digitais dos Estados Unidos e do Irã, Munk afirma que os conteúdos iranianos obtiveram maior repercussão internacional. Vídeos produzidos com inteligência synthetic, como animações em estilo Lego, conseguiram criar narrativas envolventes e facilmente compartilháveis. “Os vídeos iranianos contam histórias. Já muitos conteúdos americanos parecem fragmentados e excessivamente institucionais”, analisa.

Apesar do potencial de mobilização, a pesquisadora alerta para riscos crescentes. A proliferação de imagens geradas por inteligência synthetic dificulta a distinção entre fatos e ficção e pode aumentar a desconfiança pública. “Minha maior preocupação é que as pessoas acabem se afastando da política porque não conseguem mais entender o que é actual”, afirma.

Para Munk, o principal desafio das democracias será fortalecer a educação midiática e digital. “Precisamos desenvolver a capacidade de interpretar criticamente imagens, vídeos e narrativas que circulam on-line. A guerra memética já faz parte do cenário político world.”

Related articles

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here

Stay Connected

0FansLike
0FollowersFollow
0FollowersFollow
0SubscribersSubscribe

Latest posts