Em editorial publicado no dia do segundo turno da eleição presidencial brasileira (“Trump Ought to Keep out of Brazilian Politics”), o jornal americano The New York Occasions (NYT) afirma que a pressão sobre o Brasil integra uma estratégia de favorecimento de aliados políticos no exterior e recupera o histórico de intervenções americanas na América Latina.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, está comprometendo a influência internacional do próprio país ao tentar interferir em eleições estrangeiras. Essa é a conclusão do texto publicado neste domingo, que examina a atuação americana no Brasil e a relaciona a uma mudança mais ampla na política externa de Washington.
O NYT identifica uma ruptura com a postura adotada por sucessivos governos americanos nas últimas décadas, quando a interferência direta em campanhas eleitorais de outras democracias havia perdido espaço.
Desde o início do atual mandato de Trump, porém, o presidente e integrantes de seu governo manifestaram apoio a candidatos em países como Argentina, Colômbia, Honduras, Hungria, Israel, Japão e Polônia. Em alguns casos, segundo o editorial, a preferência política foi acompanhada de medidas econômicas favoráveis a aliados ou de punições a governos considerados adversários.
O Brasil é apresentado como o exemplo mais recente dessa estratégia. Neste domingo, os eleitores escolhem entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL), filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado a 27 anos de prisão por tentativa de golpe após perder a eleição de 2022.
Trump não declarou formalmente apoio a Flávio, mas o jornal considera que suas ações equivalem, na prática, a um endosso.
O editorial cita informações do The Washington Submit, segundo as quais um assessor da Casa Branca atribuiu a ausência de uma declaração explícita ao receio de que ela produzisse efeito contrário entre os eleitores brasileiros.
A relação entre Washington e Brasília foi marcada, em 2025, pela imposição de tarifas de 50% à maioria dos produtos brasileiros importados pelos Estados Unidos e pela aplicação de sanções ao ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes e à sua esposa. O jornal associa essas medidas à tentativa de Trump de evitar a prisão de Jair Bolsonaro e afirma que as tarifas prejudicaram a economia brasileira.
Para o conselho editorial, a questão vai além do conflito entre os dois governos. A interferência externa em uma disputa eleitoral democrática contraria o princípio de que a escolha dos representantes pertence aos cidadãos do país. O texto resume essa posição ao afirmar que a interferência eleitoral é “antidemocrática”.
O NYT também questiona o perfil dos candidatos favorecidos por Trump. Em sua avaliação, muitos são políticos de direita radical com inclinações autoritárias, interessados em concentrar poder, alterar regras eleitorais e beneficiar aliados. A aproximação com esses grupos, argumenta o texto, contradiz a defesa da democracia que os Estados Unidos historicamente apresentam como um dos fundamentos de sua atuação internacional.
O editorial, entretanto, faz uma ressalva importante: não é possível determinar com precisão o efeito da pressão americana sobre o voto brasileiro. Em outros países, as iniciativas de Trump produziram resultados contrários aos pretendidos. O NYT cita a participação do vice-presidente JD Vance na campanha do húngaro Viktor Orbán, derrotado nas urnas pouco depois.
Na América Latina, o avanço da direita também tem causas domésticas. O jornal aponta a insatisfação de eleitores com o desempenho econômico de governos de esquerda, além das preocupações com criminalidade e migração. Esses fatores ajudam a explicar a mudança política na região independentemente da atuação de Washington.
Isso não elimina, na avaliação do jornal, a capacidade americana de influenciar os acontecimentos. O tamanho de sua economia permite que decisões comerciais afetem outros países, e o governo Trump tem demonstrado disposição para utilizar esse instrumento em disputas políticas. O próprio presidente reivindicou publicamente o mérito por resultados eleitorais favoráveis a seus interesses na América do Sul. A Venezuela aparece como um caso extremo dessa política. O editorial afirma que Trump ultrapassou a interferência eleitoral ao empregar força militar para depor o presidente Nicolás Maduro e instalar um governo disposto a atender frequentemente às demandas de Washington.
O problema, segundo o jornal, é que esse comportamento oferece argumentos a governos autoritários que procuram apresentar as democracias ocidentais como potências imperialistas. Ao desrespeitar a autonomia política de outros países, Trump enfraquece a capacidade americana de defender seus valores e de conquistar apoio internacional.
O editorial do NYT sustenta que essa perda de credibilidade já aparece nas pesquisas de opinião. Com base em levantamentos do Pew Analysis Heart, compara a imagem dos Estados Unidos e da China em Brasil, Chile, Colômbia e México. Em 2014, os americanos tinham vantagem significativa sobre os chineses nesses países. Neste ano, segundo os dados citados pelo jornal, essa vantagem havia praticamente desaparecido no Brasil, enquanto a China apresentava pequena dianteira nos outros três.
A conclusão é que o poder internacional dos Estados Unidos depende também da confiança que conseguem inspirar. A pressão sobre eleições estrangeiras pode favorecer aliados em determinadas disputas, mas compromete a imagem americana como defensora da democracia e cria oportunidades para rivais geopolíticos.
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