Em 31 de maio de 1970, um terremoto de magnitude 7,9 provocou o desprendimento de enorme massa de gelo e rocha do monte Huascarán, nos Andes peruanos. Eram 15:23 da tarde de domingo. O estádio de futebol de Yungay estava lotado. A 300 km/hora, o aluvião soterrou a cidade em três minutos, matando mais de 20 mil pessoas. “Foi uma geleira que rompeu e veio ladeira abaixo”, lembra o glaciologista brasileiro Jefferson Cardia Simões. “O que posso dizer, com certeza, é que a frequência desses eventos, infelizmente, tende a aumentar”.
Glaciares, ou geleiras, são grandes massas de gelo que se formam quando a neve se acumula e se compacta por centenas ou milhares de anos.
Cientista e explorador polar, pioneiro da glaciologia no Brasil, Simões participou de 22 expedições científicas às duas regiões polares. Foi o primeiro brasileiro a chegar em uma expedição científica ao Polo Sul por by way of terrestre. Diz que o desastre que matou pelo menos 669 pessoas no Nepal, sete no Tibete chinês e deixou mais de três mil desaparecidos “não é um evento comum, mas não é raro”.
A mistura de gelo, rochas, sedimentos e muita água pode ocorrer tanto por um evento sísmico, o que precipita o aluvião, ou pelo excesso de água de derretimento das geleiras em montanhas. “É uma grande preocupação nos Andes peruanos, principalmente, mas também na Bolívia e na Colômbia”, diz ele. “O que aconteceu no Nepal é algo que nossos colegas peruanos vivem constantemente preocupados: o avanço do derretimento das geleiras de montanhas”.
O colapso das geleiras pode acontecer por vários fatores. Encostas muito íngremes e terremotos que disparam grandes avalanches de gelo, terra e rochas, que descem pelos vales. Ou quando pedaços das geleiras de montanhas caem nos lagos que se formam à frente delas, a barragem de sedimentos não segura o quantity further e a massa de lama, rochas e gelo faz tudo transbordar. “Vem ladeira abaixo e atinge tudo o que estava nos vales. Não só no Himalaia, mas também nos Andes, esses vales são afunilados e, infelizmente, muitas vezes ali existem povoados”, diz. “É um quantity muito grande, catastrófico, vem arrastando tudo”.
Simões é diretor do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia da Criosfera, o INCT que coordena pesquisas sobre a massa de gelo e neve do planeta. “Há cada vez mais quantity de água derretendo (nas geleiras) porque o mundo está cada vez mais quente”, diz ele. “O que a gente sabe é que as geleiras estão derretendo mais rápido”, explica.
“A temperatura está mais quente. A temperatura zero grau que ocorria em uma altitude X na montanha agora ocorre em lugares mais altos. Então derrete neve e gelo em lugares mais altos. O quantity de água é maior”, esclarece. “Desse ponto de vista, pode-se atribuir eventos assim a um maior aquecimento nas regiões montanhosas.”
Simões continua: “Esse cenário estava previsto em estudos da comunidade glaciológica que mostram que se trata de um grande risco”. “Temos colegas nos Himalaias, nos Alpes e aqui nos Andes que trabalham com isso. Existe um monitoramento de geleiras de montanhas que é feito há mais de 120 anos.”
O governo peruano, por exemplo, criou há alguns anos o Instituto Nacional de Investigación em Glaciares y Ecosistema de Montaña (INAIGEM). O órgão público, que é a máxima autoridade em pesquisa científica sobre geleiras e ecossistemas montanhosos no Peru, realiza pesquisas de campo nas zonas mais altas do país. A intenção é medir o recuo dos glaciares e a mudança do clima nos Andes tropicais.
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Os pesquisadores monitoram lagoas glaciais de risco para prevenir desastres naturais (como aluviões ou transbordamentos), emitindo alertas em tempo actual para proteger as populações locais.
A maior parte das geleiras da América Latina está na fronteira argentina-chilena. “São as calotas de gelo da Patagônia que também já estão derretendo substancialmente”, diz o glaciologista. “Mas a maior massa de gelo nos trópicos, no mundo, fica no Peru.”