Thursday, October 15, 2026
HomeWorld NewsMédias empresas estimam custos com fim da escala 6 x 1 |...

Médias empresas estimam custos com fim da escala 6 x 1 | Média É Mais

-


A maioria das médias empresas ouvidas em estudo da consultoria Alvarez & Marsal Efficiency estima aumento dos custos com folha de pagamento caso seja aprovado o fim da escala 6 x 1 e a adoção de uma jornada de 40 horas semanais. Segundo o levantamento, 57,1% das companhias consultadas preveem elevação das despesas, enquanto 42,9% ainda não sabem calcular o impacto. A maior parcela das respostas, de 21,4%, aponta aumento de até 5% nos custos, enquanto 7,1% estimam alta acima de 20%. A mudança é proposta pela PEC 221/19, em tramitação no Senado Federal.

Realizado entre 17 de junho e 6 de julho de 2026, o levantamento “Escala 5×2: entre o debate público e a realidade operacional das PMEs” ouviu 35 empresas com faturamento entre R$ 10 milhões e R$ 300 milhões. Embora não permita generalizar os resultados para todo o segmento, o estudo oferece uma indicação de como parte das empresas avalia os possíveis impactos da mudança. No rol dos participantes, 11 negócios afirmam ter mais de 75% da força de trabalho operando em 6 x 1 (44 horas semanais). Mais de 80% dos entrevistados afirmaram já ter simulado cenários para a implantação da jornada 5 x 2, mas 71,4% ainda não fizeram provisão financeira para as mudanças.

“Hoje, trabalhamos com cenários que indicam um possível aumento da ordem de 15% nos custos de mão de obra, mas esse número ainda depende da regulamentação definitiva e da forma como cada operação conseguirá reorganizar suas escalas”, diz Rafael Delgado, diretor de operações da Rede Livá, que atua no setor hoteleiro e alcançou R$ 18,8 milhões de faturamento em 2025. “Não entendemos que isso inviabilize a atividade hoteleira. Como qualquer mudança estrutural, haverá um período de adaptação para as empresas, para os colaboradores e para o próprio mercado.”

Atualmente, a rede adota predominantemente a escala 6 x 1, conforme previsto na grande maioria das convenções coletivas de trabalho no setor de hospitalidade, que abrange hotéis, restaurantes e demais atividades relacionadas. Em uma análise puramente matemática, Delgado observa que um dia a menos de trabalho por colaborador significa uma redução de aproximadamente 16% na disponibilidade da mão de obra. Esse cenário, segundo o executivo, exige um redimensionamento das equipes para manter uma operação que funciona 24 horas por dia, sete dias por semana.

“Na prática, porém, esse cálculo não é tão direto. O impacto dependerá do texto last da legislação e de como serão tratadas questões como finais de semana, feriados, períodos consecutivos de descanso e das negociações coletivas”, afirma Delgado.

Setor de alimentação experimenta novas jornadas

No segmento de alimentação, algumas médias se anteciparam à decisão sobre o fim da escala 6 x 1 e começaram a adotar novos modelos. À frente da Delikata, rede de doces e salgados para festa de Recife, Clayton Rodrigues implementou a jornada de 40 horas semanais em maio, com cinco dias trabalhados e dois de folga nas sete lojas da marca. O empresário conta que a decisão foi motivada pelos índices elevados de atrasos e apresentação frequente de atestados médicos pelos funcionários.

“Percebemos que period a necessidade de descanso que virava atestado”, afirma o empresário, observando que houve redução significativa número de faltas. Além disso, menciona impactos positivos na operação. “Houve melhora de desempenho, redução de desperdícios de ingredientes e melhora da qualidade do atendimento”, afirma.

Clayton Rodrigues, da Delikata, implantou a jornada 5 x 2 em maio: “Houve melhora de desempenho, redução de desperdícios de ingredientes e melhora da qualidade do atendimento” — Foto: Divulgação
Clayton Rodrigues, da Delikata, implantou a jornada 5 x 2 em maio: “Houve melhora de desempenho, redução de desperdícios de ingredientes e melhora da qualidade do atendimento” — Foto: Divulgação

Para cobrir folgas adicionais nas sete lojas, a Delikata realizou quatro novas contratações, e hoje soma 74 funcionários. A lógica aplicada não foi de aumento proporcional do efetivo diário, mas de redistribuição.

A empresa também testa a escala 4 x 3 (quatro dias de trabalho por três de descanso) em uma loja de pequeno porte em Recife. Rodrigues conta que, ao condensar a jornada em quatro dias de 10 horas, essa unidade passou a abrir mais cedo, às 9h, captando uma demanda reprimida no período da manhã. “A mudança do clima organizacional, de rendimento, de compromisso e de produtividade se solidificou”, ressalta o empresário.

Com sete unidades, 60 funcionários e faturamento de R$ 25 milhões no ano passado, a rede Rei da Parmegiana começou em abril a experimentar uma jornada alternativa à 6 x 1. A transição começou pela unidade da Vila Romana, em São Paulo, com a adoção da escala 12 x 36, na qual os funcionários trabalham em dias alternados, em turnos de 12 horas, seguidos de 36 horas de descanso.

O empresário Tiago de Caires Mendes, fundador do negócio especializado em supply, diz que, na prática, reduziu para cerca de 15 o número de dias trabalhados por mês (em jornadas de 12 horas cada). Após a mudança, Mendes ressalta que a unidade registrou zero turnover e houve melhora no clima organizacional. “Há satisfação deles. A pessoa trabalha, descansa no dia seguinte e, quando volta, parece que é uma missão”, avalia.

Segundo Mendes, o sistema anterior gerava rotatividade de pessoal elevada, pois os colaboradores trabalhavam de 25 a 26 dias por mês, com apenas uma folga semanal e um domingo mensal. Já o novo modelo garante dois sábados e dois domingos de folga por mês, o que alivia a pressão psicológica de trabalhar todos os fins de semana, diz o empresário. Mais outra loja vai adotar a nova jornada em novembro. Na escala 12 x 36, o funcionário alterna uma semana trabalhando 36 horas e a seguinte, por 48 horas.

Caires diz que o ajuste para 40 horas semanais, caso a proposta passe no Senado, deverá ser feito a partir do que for definido quando as novas regras começarem a vigorar. Mesmo assim, o empresário prevê apenas a contratação de um supervisor para cada unidade, já que elas se dividem em dois turnos, mas sem aumento de funcionários que ocupam outras funções. “Entendo que a escala 6 x 1 não é boa nem para o funcionário, nem para empresa”, afirma.

Ajustes, no entanto, são necessários. A unidade precisa fecha por uma hora para garantir o descanso simultâneo de funcionários, evitando sobrecarga em horário de pico, além da divisão do trabalho entre duas equipes independentes, cada qual com um supervisor. Para Caires, o principal desafio é justamente a formação de novas lideranças, já que cada dia de operação precisa de um responsável diferente que trabalhe de forma alinhada com o do dia seguinte.

A escassez de mão de obra é, depois do aumento de custos, o segundo maior risco do fim da escala 6 x 1 apontado pelos empresários ouvidos na pesquisa da Alvarez & Marsal e é uma das questões levantadas também pela Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel).

“Há em torno de 500 mil vagas em aberto. Isso levaria à precarização dos serviços. O restaurante rico cujo cliente é rico tomará a cozinheira do restaurante médio ou pequeno”, avalia Paulo Solmucci, presidente-executivo da Abrasel. Na avaliação de Solmucci, o fim da escala 6 x 1 deve gerar um aumento de custos superior a 20% em um setor que, segundo suas estimativas, mais de 30% declaram operar em prejuízo. Solmucci defende que, se aprovada, a mudança preveja um tempo maior para a transição, entre cinco a dez anos. A proposta em discussão prevê 14 meses para as empresas se adaptarem.

Hélio Zylberstajn, professor sênior da Faculdade de Economia da USP (FEA-USP), considera a imposição do fim da escala 6×1 por meio de lei ou da Constituição “desastrosa”, pois elevaria os custos de forma violenta e sem considerar as particularidades de cada setor. “Seria correto encaminhar isso para negociação. Você poderia mudar esse texto e dizer que reduções na jornada e mudança na escala do trabalho poderão ser feitas desde que preservada a produtividade”, diz.

Rejane Prevot Nascimento, professora da Faculdade de Ciências Sociais da Unirio, observa que, embora o aumento de custos seja um ponto a considerar, as empresas possuem capacidade de se reorganizar diante de alterações legislativas como essa.

“A experiência internacional mostra que empresas conseguiram dar conta e se reorganizar. Uma eventual redução da jornada pode representar estímulo para revisar processos internos, eliminar atividades de baixo valor agregado, investir em tecnologia, automatizar rotinas e aprimorar a gestão da produtividade”, diz Nascimento.

Related articles

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here

Stay Connected

0FansLike
0FollowersFollow
0FollowersFollow
0SubscribersSubscribe

Latest posts