Sunday, July 19, 2026
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Venezuelanos tentam recomeço após saída das equipes de resgate | Mundo

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O cheiro da morte ainda paira no ar sob o calor sufocante da costa caribenha da Venezuela, onde famílias desalojadas dormem em beliches instalados em salas de aula adaptadas e covas recém-abertas se alinham em um cemitério próximo. Três semanas após dois terremotos atingirem o densamente povoado Estado de La Guaira, a busca frenética por sobreviventes deu lugar a uma realidade sombria: sepultar os mortos, cuidar de milhares de desabrigados e reconstruir comunidades devastadas.

No cemitério La Esperanza, fileiras de cruzes brancas recém-pintadas se estendem por uma encosta empoeirada sob o sol escaldante. Em cada caixão enterrado, lacrado dentro de um saco mortuário, está uma das mais de 300 vítimas dos terremotos cuja identidade permanece desconhecida.

As autoridades afirmam que amostras de DNA foram coletadas de todos os corpos, com números de identificação correspondentes atribuídos a cada sepultura, caixão e saco mortuário, na esperança de que as famílias consigam, no futuro, identificar e recuperar seus parentes. O número oficial de mortos já supera 4.800.

Sobreviventes enlutados que passaram dias voltando aos escombros de suas casas — sem conseguir desistir de encontrar parentes desaparecidos ou abandonar os poucos pertences que restaram — começam a se instalar em abrigos temporários montados pelo governo em escolas e parques.

Alguns estabelecimentos, como farmácias e supermercados, voltaram a funcionar, enquanto as autoridades aceleram os trabalhos para retomar as operações no aeroporto internacional de Maiquetía, que foi danificado pelos terremotos.

A maioria dos venezuelanos deixou de procurar sobreviventes e passou a lamentar suas perdas.

A mudança de cenário fica evidente em um dos diversos grupos de WhatsApp criados para localizar desaparecidos. Nas horas seguintes à tragédia de 24 de junho, parentes desesperados compartilhavam nomes, fotografias e locais em uma sequência ininterrupta de mensagens. Agora, muitos desses grupos praticamente caíram em silêncio.

Danos visíveis após terremotos em La Guaira, Venezuela — Foto: AP/Ariana Cubillos
Danos visíveis após terremotos em La Guaira, Venezuela — Foto: AP/Ariana Cubillos

Nem todos conseguiram seguir em frente.

Para Yerlis Bracamonte, de 24 anos, todos os dias ainda giram em torno da busca pela prima Fabiana Ramírez sob os escombros de um conjunto habitacional em Caraballeda. Assim como dezenas de outros familiares, ela pede doações para alugar máquinas pesadas que permitam às famílias escavar os escombros por conta própria.

Foi assim que ela encontrou os corpos sem vida de outros dois primos, nove dias após os terremotos.

“Todo o equipamento que tivemos foi conseguido por meio de doações — de pessoas no exterior que queriam ajudar ou com o que tínhamos em casa”, afirmou Bracamonte. “Fora isso, não recebemos nenhuma ajuda do governo”, acrescentou, ecoando um sentimento generalizado de frustração e indignação com a resposta oficial.

Algumas equipes internacionais de busca e resgate urbano da Colômbia, dos EUA e da Europa começaram a deixar o país com o encerramento de suas missões. Sem conseguir desistir da procura, familiares continuam pedindo às equipes que permanecem no native para vasculhar edifícios específicos. Os socorristas, porém, afirmam que atuam sob um comando unificado coordenado pelo governo, que outline diariamente quais áreas cada equipe deve atender.

A maior parte dos resgates foi realizada por sobreviventes, familiares e moradores locais antes da chegada da ajuda internacional, segundo relatório da Transparencia Venezuela, capítulo native da organização anticorrupção Transparência Internacional.

Dos 19.861 sobreviventes registrados em La Guaira, a maioria escapou por conta própria ou foi resgatada por moradores da região, enquanto equipes organizadas resgataram 6.461 pessoas, segundo o relatório. Cerca de 83% desses resgates organizados ocorreram nas primeiras 48 horas após os terremotos, antes que a maior parte da ajuda internacional chegasse às áreas afetadas.

Os números indicam que a resposta do governo demorou a atingir sua capacidade plena. A Venezuela mobilizou apenas 13% do efetivo máximo de resgate nas primeiras 24 horas e só alcançou o pico da operação no 18º dia, muito depois da janela crítica de 72 horas, período em que as possibilities de encontrar sobreviventes são maiores.

Enquanto isso, o governo apoiado pelos EUA volta sua atenção para a reconstrução. As autoridades identificam terrenos disponíveis em La Guaira para construir o que chamam de “cidades antissísmicas” destinadas às famílias desalojadas e se preparam para entregar nesta semana os primeiros 200 apartamentos de reposição na capital, Caracas.

Socorristas sob escombros de prédio que desabou após terremotos na Venezuela — Foto: Bloomberg
Socorristas sob escombros de prédio que desabou após terremotos na Venezuela — Foto: Bloomberg

As altas temperaturas, a superlotação dos abrigos e os danos à infraestrutura de abastecimento de água aumentaram as preocupações com doenças diarreicas, infecções respiratórias e enfermidades transmitidas por mosquitos, como a dengue, afirmam organizações humanitárias.

As entidades de ajuda concentram agora seus esforços em evitar uma segunda emergência humanitária, restaurando os serviços de saúde, ampliando o acesso à água potável e reduzindo o risco de surtos de doenças.

Mais de US$ 781 milhões em ajuda haviam sido prometidos por 133 doadores até 12 de julho, incluindo contribuições significativas dos EUA, do Fundo Monetário Internacional, do Programa Mundial de Alimentos, da Organização Pan-Americana da Saúde e do Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA), segundo a Transparencia Venezuela.

Grande parte desses recursos, porém, havia sido apenas anunciada, sem confirmação de desembolso. Até an information de corte do levantamento, nenhum dos compromissos financeiros havia sido confirmado como efetivamente pago no Monetary Monitoring Service do OCHA, afirma o relatório.

Uma avaliação da ONU estimou em US$ 6,7 bilhões os danos físicos diretos causados pelos terremotos e alertou que o impacto econômico complete — incluindo as perdas indiretas — pode ser até três vezes maior.

Organizações humanitárias afirmam que a fase mais difícil ainda pode estar por vir.

“Infelizmente, o padrão é que, quando as operações de busca e resgate terminam e a cobertura da imprensa diminui, boa parte do apoio financeiro de que as organizações humanitárias precisam para ajudar as pessoas a reconstruir suas vidas também desaparece”, afirmou Rafael Velásquez García, líder da equipe de resposta a emergências do Worldwide Rescue Committee.

“As pessoas podem ter sido retiradas com vida de edifícios que desabaram”, afirmou. “Mas ainda precisarão de assistência pelos próximos dois a três meses, além de serviços que ajudem a restabelecer seus meios de subsistência.”

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