Há nuvens carregadas se formando no mercado brasileiro de crédito. Alguns sinais já aparecem aqui e ali. A inadimplência, que fechou junho em 4,7%, está em níveis historicamente elevados. Os balanços de muitas empresas estão mostrando números piores. A grande preocupação, porém, não vem de dados concretos, mas das falas – públicas e privadas – de executivos de bancos e gestores de recursos nas últimas semanas.
Por mais que os modelos de crédito tenham evoluído com uso intensivo de dados e ferramentas de inteligência synthetic (IA), o bom e velho “feeling” dos banqueiros continua sendo essencial para entender para onde o vento vai soprar. E o que se nota nas conversas é uma certa tensão no ar.
O desânimo vem de uma combinação de fatores: juros muito altos por muito tempo, em um cenário que não favorece grandes cortes; inflação mais elevada que o previsto, em parte por causa da guerra no Irã; empresas sufocadas e crescendo pouco; famílias muito endividadas; e, por fim, candidatos à Presidência que não parecem, pelo menos até agora, ter abraçado a causa de um ajuste fiscal de verdade.
“Vai haver uma desalavancagem forçada da pessoa física. Não sei será o gatilho, mas vai acontecer”, diz o presidente de um dos bancos mais importantes do país em conversa reservada. “O clima está muito ruim.”
A inadimplência de pessoa física está em 5,6%. O endividamento das famílias encerrou maio, dado mais recente divulgado pelo Banco Central, em 49,8% – ou 31,1% quando se exclui o financiamento imobiliário.
Outros segmentos que requerem cuidados são os de micro, pequenas e médias empresas (PMEs) e do agronegócio – este, já machucado há algum tempo e agora pressionado pelo fenômeno climático do El Niño.
Enquanto isso, grandes empresas em dificuldades devem continuar a aparecer, segundo a mesma fonte. Ainda que sejam poucos os casos problemáticos, essas companhias, por ter dívidas elevadas, muitas vezes pressionam os indicadores de inadimplência dos bancos.
No mercado de crédito privado, spreads e inadimplência estão controlados. Interlocutores ouvidos pelo Valor não veem indícios de uma crise. No entanto, o quantity de emissões de debêntures, que começou o ano em ritmo aquecido, desacelerou no segundo trimestre, quando o cenário virou.
A preocupação com o cenário macroeconômico transpareceu nas declarações dos executivos de bancos privados nas divulgações dos balanços do segundo trimestre.
O mais enfático foi Carlos Muñiz, vice-presidente financeiro do Santander. Segundo ele, o banco está adotando uma postura mais conservadora por causa do ambiente macro. A instituição, disse ele, resolveu “jogar um pouco mais seguro”. A carteira de crédito ampliada cresceu 5,8% em 12 meses até junho, enquanto as despesas com provisões para devedores duvidosos (PDD) avançaram em velocidade duas vezes maior.
Milton Maluhy Filho, CEO do Itaú Unibanco, disse que o comprometimento da renda das famílias permanece elevado, apesar dos programas governamentais, e que a inadimplência no mercado continua em alta. Segundo ele, o banco está bem protegido, mas os juros altos penalizam empresas e famílias e não são bons nem para as instituições financeiras.
Porém, afirmou, reduzir de forma mais consistente a Selic implica que o vencedor das eleições presidenciais ataque o problema da dívida pública. “Se você cria condições com juros mais baixos para a economia crescer com qualidade, você acaba gerando mais imposto. Não pela alíquota, ela pode ser menor. O imposto nominal aumenta. Esse é o ciclo virtuoso que a gente precisa mudar”, disse Maluhy em entrevista à GloboNews.
O Bradesco viu a inadimplência subir, ainda que de leve, no segundo trimestre e disse que há uma pressão no mercado de crédito como um todo. Agronegócio e pessoas físicas foram apontados como pontos sensíveis. Para atravessar esse ambiente, a estratégia dos bancos tem sido a de priorizar linhas menos arriscadas e com garantia.
“Onde é que a gente cresce na pessoa física? Cresce em consignado. A gente não está fazendo loucura. A gente está reduzindo crédito pessoal e fazendo colateralizado”, disse Marcelo Noronha, CEO do Bradesco.
Na visão dos banqueiros, o anúncio de um ajuste fiscal – ou ao menos uma sinalização – de quem vencer as eleições em outubro poderá ter um efeito benéfico na economia ao criar as condições para a queda dos juros. No entanto, até agora, nada indica que será assim.
Com a Lava-Jato, a recessão de 2016 e a pandemia de covid-19, as instituições financeiras aprimoraram a forma de conceder crédito e de se antecipar nas renegociações quando o calo começa a apertar. Temer o aumento da inadimplência não quer dizer que ele virá. Mas desprezar intuição de banqueiro não costuma ser bom conselho.
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